Ela parou à frente da minha porta, como se nada mais tivesse pra fazer. Acendeu um cigarro, olhou pro asfalto, pra calçada que de tão velha soltava o que chamam de "concreto".
Eu da sacada, sacando todos os seus movimentos...
Ela analisou o céu que ainda era escuro às onze horas da manhã. Suspirou, juntou mais os joelhos, recostou o cotovelo sobre um deles, uma mão tapando o rosto e a outra segurando o cigarro.
Perdi-me naquela cena, tão humana e simples. Cada traço dela banhado por sentimentos... Foi então que reparei que ela chorava, chorava! Chorava silenciosamente, fazendo com que os olhos brilhassem na manhã escura.
Pensei. Refleti. Era uma quinta-feira, manhã normal e ela chorava. Pude então agora sentir a sua dor: o cigarro acabara e ele saía de sua mão soltando-se vagarosamente de cada dedo, como se abandonasse o seu maior aconchego e ainda assim tivesse vontade de ficar.
Eu tive vontade de abraçá-la, tive vontade de dizê-la que o vazio é apenas o primeiro passo para o auto-conhecimento e que ela não precisava do cigarro, como não precisava de quem a havia abandonado.
10 minutos
Há um ano
