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domingo, 19 de abril de 2009

Da Sacada

Ela parou à frente da minha porta, como se nada mais tivesse pra fazer. Acendeu um cigarro, olhou pro asfalto, pra calçada que de tão velha soltava o que chamam de "concreto".
Eu da sacada, sacando todos os seus movimentos...
Ela analisou o céu que ainda era escuro às onze horas da manhã. Suspirou, juntou mais os joelhos, recostou o cotovelo sobre um deles, uma mão tapando o rosto e a outra segurando o cigarro.
Perdi-me naquela cena, tão humana e simples. Cada traço dela banhado por sentimentos... Foi então que reparei que ela chorava, chorava! Chorava silenciosamente, fazendo com que os olhos brilhassem na manhã escura.
Pensei. Refleti. Era uma quinta-feira, manhã normal e ela chorava. Pude então agora sentir a sua dor: o cigarro acabara e ele saía de sua mão soltando-se vagarosamente de cada dedo, como se abandonasse o seu maior aconchego e ainda assim tivesse vontade de ficar.
Eu tive vontade de abraçá-la, tive vontade de dizê-la que o vazio é apenas o primeiro passo para o auto-conhecimento e que ela não precisava do cigarro, como não precisava de quem a havia abandonado.

Abecedário Diário

A de "ainda não tá na hora"... e ela nunca chega!
B de "boa sorte", até mesmo para aqueles que me machucam...
C de "cansei de lutar"... e o pior de se lutar sozinha é que ninguém nota se você desiste...
D de "dançar até morrer", pra jogar pra fora todo o entulho.
E de "eu ainda amo". E basta.
F de "fudeu". Faz figuinha. Foi fácil. Fica, por favor.
G de "grito"... gritando.
H de "hora de fazer alguma coisa", mesmo que seja nada.
I de "inventar novas soluções" e, às vezes, parar nas indagações.
J de "junta tudo e joga fora", e "já vai tarde".
L de "lembranças"... Latejantes loucuras, larga lucidez, falsa sensatez.
M de "muita merda". Merda pra que te quero. (?)
N de "nunca deixar de partir". Amadurecência.
O de "observar"... original? mais outra.
P de "prantos". Patético. Por quê?
Q de "quase foi dessa vez"... quase.
R de "rir". Rindo dos problemas, enobrecendo a alma. Rindo sádicamente, quando ninguém pode escutar.
S de "sumir para sempre". Nunca contemplado por muito tempo. Saiu.
T de "tédio, tumulto, tragédia, tapas, torturas, trâmites". Todo tempo.
U de "uivar"... Dramáticamente.
V de "valer a pena"! Valia, pra mim.
X ... é de fazer-se criança e pedir atenção! Em qualquer meio ou situação.
Z de "zebra". Deu. Mais uma vez.